08 de outubro de 2007

Entrevista com Oriovisto Guimarães

Presidente do Grupo Positivo fala sobre a trajetória do grupo, dificuldades e conquistas, além de educação pública e políticas educacionais.
Há 35 anos, um grupo de jovens professores criou uma metodologia de ensino pioneira para auxiliar os estudantes que se preparavam para o vestibular. A nova proposta configurava-se como revolucionária e eficaz, e por isso estimulou a criação de uma empresa que, hoje, tem quase 6 mil funcionários e se dedica às mais diversas atividades relacionadas ao ensino.

Desde o começo, está à frente da entidade o professor Oriovisto Guimarães, que liderou aquele grupo de jovens e tornou-se presidente do Grupo Positivo. Atualmente, a empresa reúne as Escolas Positivo, o UnicenP – Centro Universitário Positivo, a Positivo Informática e a Editora Positivo.

Em entrevista ao Jornal Carreira & Sucesso, o professor relata a trajetória do grupo e fala sobre seu caso de paixão pela educação.


Jornal Carreira & Sucesso: Como começou seu interesse pela área de Educação?

Professor Oriovisto Guimarães:
Meu interesse começou quando eu era muito jovem ainda, tinha cerca de 15 anos, e dava aulas particulares para o curso de Admissão ao Ginásio, coisa que existia por volta dos anos 70. Fui do interior do Paraná para Curitiba e comecei a dar aulas para cerca de sete alunos. Eu os preparava em Matemática, Português, História, etc. Era uma espécie de vestibular que existia para ingressar no antigo ginásio.

C&S: Como decidiu ser professor?

Guimarães:
Acho que essas coisas são um pouco misteriosas, porque fui me envolvendo, dando aulas particulares de Matemática, depois passei no vestibular e comecei a fazer Engenharia. Já no colégio acabava ensinando meus amigos. Sempre tive paixão por Matemática e acabava ensinando os colegas. No cursinho também passei a dar aulas particulares; depois me transformei em professor de cursinho preparatório. Depois, mesmo tendo cursado Engenharia e Economia, me envolvi com educação. Fundamos um cursinho, o Curso Positivo, em 1972. A partir daí, minha vida foi só Educação. Comecei a me especializar, ler cada vez mais, estudar Pedagogia e Sociologia, e fiz parte do Conselho Estadual de Educação do Paraná durante três mandatos. O Positivo tem uma história de 35 anos voltada para a Educação.

C&S: Como se deu a criação do Curso Positivo?

Guimarães:
Começou em 1972. Éramos um grupo de professores e resolvemos montar nosso próprio cursinho. Naquela época, aguardamos até o final do ano, quando nossos contratos com outras instituições se encerrariam. As aulas acabavam duas semanas antes do vestibular e os alunos ficavam sem ter nada para fazer. Nosso marketing inicial (risos) era fazer um curso gratuito de revisão com uma semana de duração - é o que chamamos, hoje, de Superintensivo. Foi um sucesso muito grande. No ano seguinte tivemos nossos primeiros alunos, e a coisa toda seguiu.

C&S: Qual era o objetivo de vocês? Aproveitar esse espaço vago antes do vestibular ou oferecer alguma metodologia diferente?

Guimarães:
Tínhamos algumas coisas claras para oferecer. Já existiam, pontualmente, ações parecidas em algumas disciplinas, mas não existia um curso que oferecesse todas as disciplinas com nível didático elaborado – menos professores que acompanhavam o aluno desde a primeira até a última aula, todo um calendário programado. Introduzimos também circuito fechado de televisão - uma grande novidade na época - com aulas que o aluno poderia assistir. Havia professores-assistentes que faziam plantão para resolver as dúvidas dos alunos. Isso era novidade; hoje é lugar-comum, faz-se isso há muitos anos. Mas, na época, foi pioneiro.

C&S: Depois do sucesso do cursinho, como decidiram abrir as escolas de nível fundamental e médio?

Guimarães:
Já no segundo ano de funcionamento do curso preparatório, percebemos o seguinte: nós recebíamos os alunos com formação extremamente deficitária com relação à formação fundamental. Foi um pensamento óbvio que nos ocorreu: se em um ano conseguíamos suprir várias deficiências e melhorar o nível dos alunos a ponto de poderem disputar um vestibular concorridíssimo – a dificuldade de entrar numa universidade era 10 ou 15 vezes maior do que é hoje –, poderíamos fazer muito mais nos 11 anos que reúnem a formação fundamental e de ensino médio. Desenvolvemos uma metodologia educacional, pedagogia, livros. Pensamos em produtividade do tempo, formas de motivar o aluno. Enfim, toda essa metodologia poderia ser adaptada para a educação fundamental. Para nossa primeira escola de ensino fundamental, contratamos os professores um ano antes para que ficassem trabalhando em tempo integral conosco, preparando e desenvolvendo as aulas que iriam dar no ano seguinte. Construímos livros com conteúdo de forma mais lúdica, pois são matérias e alunos completamente diferentes. Criando uma nova Pedagogia - que não era mais a do cursinho – criamos o Sistema Positivo, que hoje está presente em 2.500 escolas no Brasil inteiro.

C&S: E esse material didático que vocês criaram depois passou a ser vendido para outras escolas?

Guimarães:
Começamos a usar esse material nas nossas escolas e era assim: o professor fazia anotações nestes livros ao longo do ano - o que não estava dando certo, por exemplo – e no final de cada ano um grupo ia avaliando essas modificações e alimentando esse material com novas informações. Cinco anos depois de começar a usar o material, apareceram as primeiras escolas interessadas no mesmo. Não tínhamos a intenção de vender isso. O material não foi desenvolvido com a intenção de vender, pensávamos na qualidade da nossa escola. Quando as escolas de Curitiba quiseram comprar, nos reunimos e surgiu uma dúvida cruel: "Tantos anos trabalhando nisso e agora vamos vender para os concorrentes?" Hesitamos um pouco até decidirmos que era melhor vender, porque senão poderiam copiar ou desenvolver material parecido. Só dois anos depois percebemos que era melhor sistematizar essa venda: dar assistência às escolas, treinar os professores, fazer com que as escolas mandassem observações e sugestões – não era simplesmente comprar e vender o material. Isso é uma coisa interessante: na maioria das escolas, quando o livro é trocado é quase uma revolução. Com a gente isso não acontece, o material é interligado e aperfeiçoado ano a ano. Pensamos muito na integração das disciplinas, chamamos de integração horizontal, e isso acontece porque pensamos no currículo como um todo. Da mesma forma acontece com a integração vertical – de uma série para a outra. Isso vem sendo aperfeiçoado há muitos anos, e por esse motivo funciona tão bem.

C&S: O Sistema também é utilizado por escolas públicas?

Guimarães:
Sim, muitas já utilizam nosso Sistema. E tem provocado uma melhoria de qualidade na educação pública mantida pelas prefeituras, porque não só fornecemos o material como também fazemos treinamento dos professores. Realmente o sistema organiza atividade pedagógica da escola. Alguns criticam, pois pensam que isso pode limitar a liberdade do professor. De forma nenhuma isso acontece, é uma forma de garantir um padrão mínimo – como qualquer livro didático. O problema é que ao adotar um livro didático não se tem muito controle sobre o quanto o professor avança com o conteúdo. No nosso sistema, como trocamos os livros a cada dois meses, necessariamente, se o aluno entra com dois livros, sabemos que o professor não terminou o conteúdo (risos). O material dá um ritmo, mas não tira a liberdade do professor. O tempo é calculado de tal forma que o professor possa dar o conteúdo com folga e tenha tempo para criar coisas próprias e adequadas para a turma que está trabalhando. O material é bastante maleável.

C&S: Vocês encontram mais dificuldade para implantar o método em escolas públicas?

Guimarães:
Acho que são escolas diferentes, com perfis diferentes. Na escola privada, você tem a figura do diretor, que tem uma ação muito forte em cima dos professores. Na pública, isso não é bem assim. O diretor não pode, por exemplo, demitir professor. Mas o idealismo, a boa vontade, a alma de educador é a mesma. Não tem grandes diferenças, não.

C&S: A partir do cursinho vocês viram a oportunidade de criar as escolas de educação básica. E o Centro Universitário Positivo, também surgiu assim, como extensão do trabalho?

Guimarães:
É uma coisa totalmente diferente. Você não pode numa universidade pretender programar e definir os conteúdos como se faz na educação básica por uma razão muito simples: na educação básica você ensina algumas disciplinas e acaba aí. No ensino superior, como é o caso do nosso Centro Universitário, temos 26 cursos. Se colocarmos 40 disciplinas em cada um, vamos ter mais de mil ao todo. Não posso pretender formatar tudo isso em sistemas de livros. É totalmente inviável. Não posso ter a pretensão de reter todo o conhecimento humano em uma coleção de livros. O que existe em comum é a filosofia baseada nos nossos quatro pilares: saber, ética, trabalho e progresso.

C&S: Nesses 35 anos trabalhando com Educação, quais foram as maiores mudanças que ocorreram?

Guimarães:
A Educação é uma arte que tem como base três ciências essenciais: Antropologia, Sociologia e Psicologia. Quando você altera a sociedade, tem de alterar a Educação. Há 35 anos, não se falava em computador, não havia Internet, a televisão estava começando, o mundo era outro. A Educação tem de acompanhar isso. Por exemplo: uma escola que hoje não tem computador começa a perder – em termos de interesse – para as mídias alternativas. A escola tem de se modernizar e acompanhar a evolução da sociedade. Vou dar um exemplo: no nosso Centro Universitário, temos um Portal Educacional que permite que o aluno acesse todo o conteúdo da aula que terá no dia seguinte. O professor disponibiliza isso, inclusive com links para outras referências. O aluno pode se inteirar do assunto e ir para a aula com certo preparo. Não é só o professor que prepara a aula, o aluno também. A aula vira um encontro, vai haver um debate desses conteúdos. Isso era impensável há alguns anos, não tinha como fazer isso. Agora, a formação erudita, os valores, a filosofia, Fernando Pessoa, Pitágoras, tudo que é erudição e conhecimento básico para exercer a cidadania não muda. Mudam os meios de apresentar isso ao aluno, e a escola precisa entender isso. Quando olho sob este aspecto, vejo que algumas escolas entenderam isso e se adaptaram, e outras não entenderam e não se adaptaram. Outra questão gravíssima que percebo, principalmente na educação pública: uma coisa muito boa foi a universalização da educação fundamental, mas tivemos uma queda de qualidade muito grande. O Brasil precisa investir mais na escola pública, mas não só em quantidade, também em qualidade.

C&S: Quais as características essenciais para quem quer trabalhar com Educação hoje?

Guimarães:
Em primeiro lugar, tem de ter alma de professor – isso é uma coisa com a qual você nasce. Tem de gostar de ciência e de ensinar e ter paciência. Uma definição de Educação que gosto muito é "a arte de criar olhos e ouvidos na alma". Se a pessoa entender isso e souber que vai passar conteúdo e conhecimento que formem as pessoas, faz a diferença para um país.

C&S: Como foi criada a Positivo Informática?

Guimarães:
Todas as empresas do grupo, por incrível que pareça, nasceram como decorrência de alguma coisa ligada à Educação. As gráficas nasceram da necessidade de fazer nossos livros. A área de informática surgiu porque já tínhamos o curso de Engenharia da Computação e pensamos em fazer alguns computadores em laboratório, e a coisa cresceu da mesma forma. Era uma coisa muito pequena quando nasceu, fazíamos 20 ou 30 computadores por mês. Passados quase 20 anos, é a maior empresa de informática do País, vende 140 mil computadores por mês. A editora também: já editávamos nossos livros e ampliamos nossos catálogos.

C&S: Quais fatores foram essenciais para o sucesso do grupo?

Guimarães:
Acho que é comprometimento, colocar-se por inteiro naquilo que você faz e gostar do que está fazendo. Temos 5.800 funcionários, e acho que as pessoas têm de vestir a camisa da casa, ter amor pelo que fazem, serem apaixonados por Educação e se realizarem com aquilo que fazem. Se a gente não consegue ser feliz no trabalho, não vai ser feliz na vida. Passamos a vida toda trabalhando. Se você não for feliz no trabalho, definitivamente, não vai ser feliz. Não é só o salário, é muito mais que isso: é sua realização como pessoa. E acho que isso existe no Grupo Positivo.
 
próximos eventos
de 29/11/2018 até 01/12/2018
V Foro Internacional de Acreditación: Calidad con Inclusión y Desarrollo
de 27/11/2018 até 30/11/2018
IV ENAF - Encontro de Administração de Floriano
Floriano / PI